Prato do dia: água de toldo

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20 de junho de 2016 por Felipe Tavares

Era domingo e dia do meu aniversário. Eu e minha esposa retornávamos de uma viagem do interior e fomos almoçar em um badalado restaurante da cidade. Já havíamos tentado ir uma vez ao local, mas a longa fila de espera nos desanimou.

Desta vez conseguimos uma mesa logo quando chegamos, mas constatamos que se demorássemos mais 10min, arrumar um lugar seria uma tarefa impossível.

Tudo ia bem, havíamos comido uma deliciosa bochecha de porco, o chopp estava gelado e o local repleto de gente bonita. Optamos por pedir mais uma entrada antes do almoço: caçarola de polvo.

Enquanto nos esbaldávamos com o ponto perfeito de cozimento do polvo, algo muito, muito desagradável aconteceu.

Ao subirem o toldo retrátil da varanda, um “rio” de água parada de chuva simplesmente nos acertou com toda força e nos deu um banho. O chopp aguou, os pães viraram uma pasta e o polvo, coitado, achou que estava de volta para o mar.

O mais incrível? De todas as dezenas de mesas próximas a nós, a cachoeira caiu somente em nós. Presente de aniversário? Prato especial?

Com as roupas e cabelos molhados e tendo todos os olhares do restaurante em nós, tive vontade de me esconder debaixo da mesa ou melhor, numa caixa de sapato. Todos nos olhavam esperando qual seria nossa reação diante daquele dilúvio.

Alguns segundos se passaram e um jovem garçom nos pergunta o que aconteceu. Relatamos o fato e ele, surpreso, fala que vai pedir ao gerente para nos enviar novas bebidas e que não iria cobrar o último prato. Falei que gostaria de conversar com o gerente já que a situação foi extremante desagradável (porra, eu havia guardado a melhor parte do polvo pro final, a pontinha do tentáculo, e agora ela estava ali, nadando).

Mais alguns minutos se passaram e a vergonha de estar ali nos consumia. Os olhos da minha esposa me fuzilavam. Se estava ruim para mim, imagina para ela com o combo “cabelo molhado, maquiagem borrada e calça ensopada”. Nossa vontade era sair correndo ali, sem pagar nada.

Volta o garçom, sem graça, falando que o gerente não poderia nos atender, mas que havia conversado com ele e que toda a conta ficaria por conta da casa. Me recusei, falando que não era para tanto, mas ele insistiu com um sincero pedido de desculpas. Ele também queria que nós saíssemos dali, parecia que compartilhava da nossa vergonha e sabia que ia ser bem difícil nos atender depois do ocorrido.

Agradecemos e nos retiramos do local, sem almoço, mas surpresos com aquela atitude.


Desagradável, certo?

No momento da raiva é claro que falei que nunca mais voltaria ali, que eles tinham que tomar mais cuidado e que não deveriam puxar o toldo com o restaurante lotado.

Mas depois, com a cabeça mais fria (e seca) o fato me lembrou alguns dos casos relatados no excepcional “Hospitalidade e Negócios” do Danny Meyer (já falei dele aqui). Estamos tão acostumados a sermos “maltratados” que quando alguém tem um pouco de empatia conosco, nos surpreendemos e ficamos sem graça.

Com esta atitude o restaurante me ganhou e deixou a porta aberta para mais uma visita.

Garçom, mais uma caçarola de polvo, pfvr!

Abraços molhados,

Felipe Tavares

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3 pensamentos sobre “Prato do dia: água de toldo

  1. diariodeprato disse:

    Puxa, que situação… Fiquei só imaginando a pontinha do polvo lá boiando. rsrs. É horrível quando a gente guarda a melhor parte para o final e acontece alguma tragédia dessas (cai no chão, ou alguém rouba, ou cai água de toldo…kkkk). Volta lá com a sua esposa e pede mais duas caçarolas! 🙂

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